Sávio era gamado na Madalena. Ela era diferente das outras meninas da travessa dele. Andava descalça na beirada do riacho, gostava de samba e deixava o cabelo crescer até relar nas ancas.
Madalena tinha um olho em Sávio. Gostava do mulato atarracado, com fama de brigão, mas cheio dos poemas. Dizia umas palavras bonitas, tocava gaita na roda dos sábados e ainda lhe fazia uns agrados roubando tecos de doce da despensa da mãe.
Sávio queria relar nas ancas de Madalena. Madalena queria ser a gaita de Sávio.
Iam ao samba muito bem, religiosamente como reza de frade, pontualmente como o relógio da Glória. Até que um dia – sempre tem um dia na história do morro e do amor – apareceu um fogoió. Armando. Loiro. Alto. Magrelo. Tocador de violão. Puxador de fumo e batedor de palmas para as meninas bonitas nas horas vagas. Um assanhado, se a palavra ainda se usa.
Sexta foi o dia. Armando chegou no boteco do Sebastião de viola num saco e uns panos amarrados num lençol perguntando por paragem. Deram a direção da pousada da dona Penha e continuaram a falar do samba no dia seguinte.
Chepo-chepo-chepo, raspou Armando a chinela no chão quando a tira da havaina estourou. Xingou curto, pôs viola no chão, panos sobre a viola e agachou pra consertar a chinela. Ajeitou do jeito que dava, pegou os panos com uma mão, a viola com a outra e foi levantando. E do levantar bateu os olhos no movimento das ancas de Madalena e Madalena bateu os olhos pretos nos olhos castanhos do loiro amorenado Armando. E foi só: Madalena seguiu pra casa calada como vinha, pensando num samba da Portela. Armando ajeitou a calça e desceu um pouco mais a ruela, até chegar em dona Penha.
No dia seguinte, quando o samba começou a cantar na cabeça de Sávio, Madalena já estava pronta. Uma sandália de tiras, uma calcinha tranqüila, uma saia rodada amarela, uma blusa modesta bem branca, um colar de contas grandes de pérolas e o cabelo armado sem pressa. Armando também já estava pronto: sandália de couro, calça de linho, regata, sorriso maroto, viola no saco e a barba feita com a faca de estimação.
Só depois que os dois se vestiram é que o tempo correu para Sávio, que se aprumou dentro dum jeans claro, uma camisa de pano muito distinta, um chapéu bonito. No corpo um perfume forte para o sol do dia e na boca uma talagada de pinga, porque já passava do meio dia e ele ainda não havia escovado dos dentes.
Na porta do barraco de Madalena, Sávio chamou por ela e o cheiro dela veio vindo na frente, passando a mão na cintura dele. Desceram a rua até o boteco do Sebastião e na porta o olho do fogoió bateu nos olhos da menina nova e tinindo gostosura. Sávio mirou. Madalena salivou. Entraram – Armando ficou na porta.
Quando deram a primeira marcação da cuíca, Armando entrou, colocou a viola de lado e puxou Madalena para dançar. Sem cerimônia, meio sem jeito, mas com o peito aberto. Puxou Madalena com uma mão, com a outra puxou Sávio.
- Tu tá com a cara do cão, já notei. Mas não vamos aborrecer a moça, sim? É só uma dança.
O sangue quente no olho de Sávio foi sabido o suficiente para entender que a faca no bolso do outro era mais valente que a fama dele de brigão. Afinou.
