Não ia levar as petecas para a escola, queria encarar a Mariana de joelhos limpos e olhos lisos, sem o vício do três buracos a tilintar nas têmporas. O irmão mais velho até estranhou. Ele, passando duas vezes pente pelo cabelo, saiu.
Bateu os calcanhares na porta da escola, tudo era pouco esforço para tirar a terra vermelha que teimava em ficar presa nos vãos do solado do sapato, mas quem liga, entrou, caminhou até a sala, Mariana não estava lá, estava brincando de roda com outras meninas da sala, então ele chegou até ela, cutucou um ombro e ela prendeu a respiração.
“Cheirava a pasta de dente”, dizia a criança.
Nunca fora tão limpo para a escola. No caminho o Osório e o Acásio caçoaram, fizeram troça, mas ele não ligava.
Chegou nela, cutucou o ombro e a tirou de tempo.
“Brinca comigo?”, disse o menino, bambolê na mão, cabeça no saco de petecas que o irmão usurparia e braço para ela estendido, num arremedo de dança, num arremedo de sonho e num sorriso que, de tão grande, parecia como se a Lua os abençoasse. Era de uma ternura tão grande que ninguém – nem amigos, nem professores – entendia como aquilo era possível.
“Contigo me sinto em paz”.

