Valsinha

Maio 13, 2009

Não ia levar as petecas para a escola, queria encarar a Mariana de joelhos limpos e olhos lisos, sem o vício do três buracos a tilintar nas têmporas. O irmão mais velho até estranhou. Ele, passando duas vezes pente pelo cabelo, saiu.

Bateu os calcanhares na porta da escola, tudo era pouco esforço para tirar a terra vermelha que teimava em ficar presa nos vãos do solado do sapato, mas quem liga, entrou, caminhou até a sala, Mariana não estava lá, estava brincando de roda com outras meninas da sala, então ele chegou até ela, cutucou um ombro e ela prendeu a respiração.

“Cheirava a pasta de dente”, dizia a criança.

Nunca fora tão limpo para a escola. No caminho o Osório e o Acásio caçoaram, fizeram troça, mas ele não ligava.

Chegou nela, cutucou o ombro e a tirou de tempo.

“Brinca comigo?”, disse o menino, bambolê na mão, cabeça no saco de petecas que o irmão usurparia e braço para ela estendido, num arremedo de dança, num arremedo de sonho e num sorriso que, de tão grande, parecia como se a Lua os abençoasse. Era de uma ternura tão grande que ninguém – nem amigos, nem professores – entendia como aquilo era possível.

“Contigo me sinto em paz”.


Sem compromisso

Abril 28, 2009

Então veio o dia em que ela finalmente topou sair com o cara. A vontade já estava na carne daquela branquelinha pequena e espivetada já tinha tempos. Mas ficava, saliente, cozinhando o cara aos poucos. Só que aí, pimba!, cedeu.

“Saio contigo sim, onde queres me levar?”

Falava engraçada a metida. Mandava esses Ss de vez em quando. Ai o cara emendou logo.

“Quero te levar num samba. Vem?”

Ela foi. Foram, juntos, samba de sábado à noite na Principal, uma gafieira quente da zona norte, foram dançar. Mas lá chegando, enquanto ele foi à beira do bar pedir uma gelada, a menina do beijo mais difícil do Rio de Janeiro já estava rodando com outro. E com outro. Parou para olhar aquilo. Irritou-se, não tinha condição, não tinha beira. Chegou para ser par e foi ignorado e não se deixou mais sê-lo. Passou-lhe a mão nas ancas, puxou aquilo tudo para ele e mandou, bem reto.

“Tu é mulher minha se veio comigo. Não me faz passar por corno aqui no meio da gafieira”.

Ela respirou fundo, injetou o olho e disparou, ardilosa, um “Pois sim!”.

E pulou no pescoço de outro, e riu desdenhando e seguiu no samba.


Amor barato

Abril 24, 2009

Não era todo dia que acordava feliz. Naquele dia, no entanto, parecia dormido na melhor cama do mundo, mesmo tendo sido seu leito a mesma esteira de todos os dias.

Só se sentiu assim, no entanto, depois de por os pés na rua e subir no 432, que o levava de casa ao trabalho.

Ou pelo menos que ele achava que o levaria para o 432. Sabe-se lá porque cargas d’água, entrou no 482. Descobriu na boca na catraca e na primeira curva diferente que o ônibus fez. “Esse não é o 432, não, seu cobrador?”, humilhou-se. “Não, é o 482″.

Mas isso é assunto pequeno. Ele tinha um ponto logo mais a diante, voltaria a pé, prestaria mais atenção. O sorriso da visão daquela menina não sumiria, isso sim era verdade. Sentada antes da catraca, com um daqueles tubos de designers/arquitetos carregarem seus projetos e um sorriso. Não era um sorriso angelical. Ou de morrer. Ou de matar. Era um sorriso de quem está no ônibus esperando chegar ao seu destino. Ou de quem lê um romance provocador.

Ele sorria inegavelmente pelo sorriso dela. Cantaria para ela, numa outra situação, um “eu queria ser um tipo de compositor capaz de cantar nosso amor modesto”. Cantaria até naquele momento, se não fosse tão grande o barulho dentro do ônibus.

Mas não cantou, pediu parada e desceu. Nunca mais a viu e já nem lembra mais do sorriso dela. Deixou pra lá.


Vai passar…..

Abril 24, 2009

…..nessa avenida um samba popular.

Mas não é de samba [ou seria?] que falamos, então, para entender tudo e não ficar nada nada perdido, clica na imagem abaixo e entende.

xavequeiro

Depois volta aqui e lê os textos. E vê se aprende com o mestre.