Deixe a menina

fevereiro 2, 2010

Sávio era gamado na Madalena. Ela era diferente das outras meninas da travessa dele. Andava descalça na beirada do riacho, gostava de samba e deixava o cabelo crescer até relar nas ancas.

Madalena tinha um olho em Sávio. Gostava do mulato atarracado, com fama de brigão, mas cheio dos poemas. Dizia umas palavras bonitas, tocava gaita na roda dos sábados e ainda lhe fazia uns agrados roubando tecos de doce da despensa da mãe.

Sávio queria relar nas ancas de Madalena. Madalena queria ser a gaita de Sávio.

Iam ao samba muito bem, religiosamente como reza de frade, pontualmente como o relógio da Glória. Até que um dia – sempre tem um dia na história do morro e do amor – apareceu um fogoió. Armando. Loiro. Alto. Magrelo. Tocador de violão. Puxador de fumo e batedor de palmas para as meninas bonitas nas horas vagas. Um assanhado, se a palavra ainda se usa.

Sexta foi o dia. Armando chegou no boteco do Sebastião de viola num saco e uns panos amarrados num lençol perguntando por paragem. Deram a direção da pousada da dona Penha e continuaram a falar do samba no dia seguinte.

Chepo-chepo-chepo, raspou Armando a chinela no chão quando a tira da havaina estourou. Xingou curto, pôs viola no chão, panos sobre a viola e agachou pra consertar a chinela. Ajeitou do jeito que dava, pegou os panos com uma mão, a viola com a outra e foi levantando. E do levantar bateu os olhos no movimento das ancas de Madalena e Madalena bateu os olhos pretos nos olhos castanhos do loiro amorenado Armando. E foi só: Madalena seguiu pra casa calada como vinha, pensando num samba da Portela. Armando ajeitou a calça e desceu um pouco mais a ruela, até chegar em dona Penha.

No dia seguinte, quando o samba começou a cantar na cabeça de Sávio, Madalena já estava pronta. Uma sandália de tiras, uma calcinha tranqüila, uma saia rodada amarela, uma blusa modesta bem branca, um colar de contas grandes de pérolas e o cabelo armado sem pressa. Armando também já estava pronto: sandália de couro, calça de linho, regata, sorriso maroto, viola no saco e a barba feita com a faca de estimação.

Só depois que os dois se vestiram é que o tempo correu para Sávio, que se aprumou dentro dum jeans claro, uma camisa de pano muito distinta, um chapéu bonito. No corpo um perfume forte para o sol do dia e na boca uma talagada de pinga, porque já passava do meio dia e ele ainda não havia escovado dos dentes.

Na porta do barraco de Madalena, Sávio chamou por ela e o cheiro dela veio vindo na frente, passando a mão na cintura dele. Desceram a rua até o boteco do Sebastião e na porta o olho do fogoió bateu nos olhos da menina nova e tinindo gostosura. Sávio mirou. Madalena salivou. Entraram – Armando ficou na porta.

Quando deram a primeira marcação da cuíca, Armando entrou, colocou a viola de lado e puxou Madalena para dançar. Sem cerimônia, meio sem jeito, mas com o peito aberto. Puxou Madalena com uma mão, com a outra puxou Sávio.

– Tu tá com a cara do cão, já notei. Mas não vamos aborrecer a moça, sim? É só uma dança.

O sangue quente no olho de Sávio foi sabido o suficiente para entender que a faca no bolso do outro era mais valente que a fama dele de brigão. Afinou.

Anúncios

Valsinha

maio 13, 2009

Não ia levar as petecas para a escola, queria encarar a Mariana de joelhos limpos e olhos lisos, sem o vício do três buracos a tilintar nas têmporas. O irmão mais velho até estranhou. Ele, passando duas vezes pente pelo cabelo, saiu.

Bateu os calcanhares na porta da escola, tudo era pouco esforço para tirar a terra vermelha que teimava em ficar presa nos vãos do solado do sapato, mas quem liga, entrou, caminhou até a sala, Mariana não estava lá, estava brincando de roda com outras meninas da sala, então ele chegou até ela, cutucou um ombro e ela prendeu a respiração.

“Cheirava a pasta de dente”, dizia a criança.

Nunca fora tão limpo para a escola. No caminho o Osório e o Acásio caçoaram, fizeram troça, mas ele não ligava.

Chegou nela, cutucou o ombro e a tirou de tempo.

“Brinca comigo?”, disse o menino, bambolê na mão, cabeça no saco de petecas que o irmão usurparia e braço para ela estendido, num arremedo de dança, num arremedo de sonho e num sorriso que, de tão grande, parecia como se a Lua os abençoasse. Era de uma ternura tão grande que ninguém – nem amigos, nem professores – entendia como aquilo era possível.

“Contigo me sinto em paz”.


Sem compromisso

abril 28, 2009

Então veio o dia em que ela finalmente topou sair com o cara. A vontade já estava na carne daquela branquelinha pequena e espivetada já tinha tempos. Mas ficava, saliente, cozinhando o cara aos poucos. Só que aí, pimba!, cedeu.

“Saio contigo sim, onde queres me levar?”

Falava engraçada a metida. Mandava esses Ss de vez em quando. Ai o cara emendou logo.

“Quero te levar num samba. Vem?”

Ela foi. Foram, juntos, samba de sábado à noite na Principal, uma gafieira quente da zona norte, foram dançar. Mas lá chegando, enquanto ele foi à beira do bar pedir uma gelada, a menina do beijo mais difícil do Rio de Janeiro já estava rodando com outro. E com outro. Parou para olhar aquilo. Irritou-se, não tinha condição, não tinha beira. Chegou para ser par e foi ignorado e não se deixou mais sê-lo. Passou-lhe a mão nas ancas, puxou aquilo tudo para ele e mandou, bem reto.

“Tu é mulher minha se veio comigo. Não me faz passar por corno aqui no meio da gafieira”.

Ela respirou fundo, injetou o olho e disparou, ardilosa, um “Pois sim!”.

E pulou no pescoço de outro, e riu desdenhando e seguiu no samba.


Amor barato

abril 24, 2009

Não era todo dia que acordava feliz. Naquele dia, no entanto, parecia dormido na melhor cama do mundo, mesmo tendo sido seu leito a mesma esteira de todos os dias.

Só se sentiu assim, no entanto, depois de por os pés na rua e subir no 432, que o levava de casa ao trabalho.

Ou pelo menos que ele achava que o levaria para o 432. Sabe-se lá porque cargas d’água, entrou no 482. Descobriu na boca na catraca e na primeira curva diferente que o ônibus fez. “Esse não é o 432, não, seu cobrador?”, humilhou-se. “Não, é o 482”.

Mas isso é assunto pequeno. Ele tinha um ponto logo mais a diante, voltaria a pé, prestaria mais atenção. O sorriso da visão daquela menina não sumiria, isso sim era verdade. Sentada antes da catraca, com um daqueles tubos de designers/arquitetos carregarem seus projetos e um sorriso. Não era um sorriso angelical. Ou de morrer. Ou de matar. Era um sorriso de quem está no ônibus esperando chegar ao seu destino. Ou de quem lê um romance provocador.

Ele sorria inegavelmente pelo sorriso dela. Cantaria para ela, numa outra situação, um “eu queria ser um tipo de compositor capaz de cantar nosso amor modesto”. Cantaria até naquele momento, se não fosse tão grande o barulho dentro do ônibus.

Mas não cantou, pediu parada e desceu. Nunca mais a viu e já nem lembra mais do sorriso dela. Deixou pra lá.